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Jesus me vê debaixo da figueira

  • Foto do escritor: Allan Dionisio
    Allan Dionisio
  • há 18 horas
  • 3 min de leitura

“Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi.” (Jo 1,48). Há algo de consolador nessa frase de Jesus a Natanael. Não sabemos exatamente o que Natanael fazia debaixo da figueira. O Evangelho não explica. Sabemos apenas que era um lugar em que ele estava antes de encontrar Jesus. Um lugar que, provavelmente, não tinha importância para mais ninguém. Mas tinha importância para Jesus: “eu te vi”.

É justamente aí que está a força dessa passagem. Jesus não começa revelando a Natanael quem ele deve ser, o que precisa mudar ou aquilo que fez de errado. Antes de qualquer coisa, Jesus lhe revela que o conhece. Natanael descobre que, antes de procurar Jesus, já havia sido encontrado pelo olhar d'Ele.

Todos nós temos uma “figueira”, um lugar escondido de nossa existência onde ninguém entra. É ali que ficam nossas preocupações mais profundas, nossos medos, contradições, desejos e também aquilo que não conseguimos dizer. Podemos parecer tranquilos diante dos outros, cumprir nossas responsabilidades, trabalhar, cuidar da família e seguir a rotina, enquanto por dentro carregamos perguntas e inseguranças que somente nós conhecemos. É justamente ali que Jesus nos vê.

Ele vê a preocupação que temos com o futuro, inclusive aquilo que nos angustia quando pensamos em nossa vida financeira. Vê o medo de não conseguir dar conta, a sensação de instabilidade e o esforço que fazemos para manter tudo de pé. Ele também vê nossas lutas interiores: desejos que nos confundem, tentações que nos incomodam, sentimentos que preferiríamos não experimentar. Nada disso é desconhecido por Ele.

Talvez nossa primeira reação seja esconder essas coisas de Deus. Afinal, se Ele conhece tudo, o que pensará de nós? Mas o Evangelho mostra que o olhar de Jesus não é um olhar que afasta. Natanael estava debaixo da figueira e, quando Jesus o vê, não o rejeita. Ao contrário, chama-o para mais perto.

Isso muda a maneira como podemos olhar para nossas próprias fragilidades. Ser visto por Jesus não significa ser condenado por Ele. Significa ser conhecido por inteiro e, ainda assim, ser chamado. A fé começa quando deixamos de tentar apresentar a Deus uma versão melhor de nós mesmos e permitimos que Ele encontre aquilo que realmente somos.

Por isso, a questão não é como sair rapidamente debaixo da nossa figueira. Algumas situações da vida não se resolvem de um dia para o outro. Algumas preocupações permanecem. Algumas lutas exigem tempo, maturidade e escolhas concretas. A questão é outra: consigo acreditar que Jesus está comigo também ali?

Quando Natanael descobre que Jesus o havia visto, sua resposta é uma profissão de fé. Ele reconhece: “Tu és o Filho de Deus”. O encontro com aquele olhar transforma sua maneira de compreender quem está diante dele. E Jesus ainda lhe diz: “Coisas maiores que esta verás”.

Essa é também uma palavra para nós hoje! Ainda não vemos tudo. Agora enxergamos apenas uma parte da nossa história, muitas vezes justamente a parte que nos preocupa. Deus, porém, vê mais longe. Ele vê aquilo que ainda não conseguimos ver.

Por isso, quando eu estiver novamente debaixo da minha figueira, preocupado com o futuro, lutando comigo mesmo, carregando uma culpa ou simplesmente tentando entender o caminho, eu não preciso encontrar imediatamente uma resposta, mas apenas permanecer alguns instantes diante desta certeza: Jesus me vê.

E, se Ele me vê justamente ali, então aquele lugar que parecia ser apenas o lugar das minhas preocupações pode também se tornar o lugar do meu encontro com Ele.

 
 
 

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