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A sede de Deus e o escândalo da graça

  • Foto do escritor: Allan Dionisio
    Allan Dionisio
  • há 8 horas
  • 3 min de leitura

(Reflexão sobre 2Rs 5,1-15a; Sl 41(42); Lc 4,24-30)


Há uma frase do Salmo 41(42) que atravessa toda a liturgia deste dia como um fio condutor espiritual: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo.” Trata-se de uma afirmação simples, mas profundamente verdadeira sobre a condição humana. No fundo da experiência humana existe uma sede que nenhuma realidade material consegue saciar completamente. É a sede de Deus.

A primeira leitura apresenta a história de Naamã, comandante do exército da Síria. Ele era um homem poderoso, respeitado e bem-sucedido, mas carregava uma realidade que revelava sua fragilidade: a lepra. A narrativa bíblica mostra que, mesmo cercado de prestígio e poder, Naamã não estava livre da experiência do limite. Essa tensão é profundamente humana. Muitas vezes o ser humano conquista muitas coisas, mas continua confrontado com situações que revelam sua incapacidade de controlar plenamente a própria vida.

É nesse contexto que surge um caminho inesperado: uma jovem escrava israelita fala do profeta Eliseu. O caminho da cura passa por Israel, por um profeta e, sobretudo, por um gesto aparentemente simples: mergulhar sete vezes no rio Jordão.

Aqui aparece um elemento central da espiritualidade bíblica: Deus não age necessariamente por meio do extraordinário que o ser humano espera. Naamã, inicialmente, se revolta justamente por isso. Ele esperava um gesto grandioso, um ritual solene, algo que correspondesse à sua posição social. O que recebe, porém, é uma ordem simples. O obstáculo para a cura não era apenas a doença, mas o orgulho.

Somente quando aceita descer ao Jordão e obedecer humildemente à palavra do profeta é que a cura acontece. A transformação física acompanha uma transformação interior. Naamã então faz uma profissão de fé: “Agora sei que não há Deus em toda a terra senão em Israel.”

Essa história ajuda a compreender o Evangelho de Lucas. Em Nazaré, Jesus afirma uma verdade desconcertante: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria.” Para explicar essa afirmação, Ele recorda dois episódios do Antigo Testamento: a viúva de Sarepta, que recebeu a ajuda do profeta Elias, e o próprio Naamã, o sírio, curado por Eliseu.

O ponto central é claro: a graça de Deus não se limita às fronteiras humanas. Ela ultrapassa as expectativas, as categorias religiosas e até mesmo os limites que as pessoas estabelecem para Deus.

Essa afirmação, porém, provoca escândalo. Os habitantes de Nazaré ficam indignados. Aqueles que conheciam Jesus desde a infância não conseguem aceitar a profundidade de sua missão. A familiaridade gera fechamento. Em vez de reconhecer a presença de Deus, reagem com hostilidade.

A reação é extrema: querem expulsá-lo da cidade e lançá-lo do precipício.

O contraste entre as leituras é muito significativo. De um lado, um estrangeiro, Naamã, que inicialmente resiste, mas depois se abre à ação de Deus. De outro lado, os conterrâneos de Jesus, que deveriam estar mais próximos da promessa divina, mas se fecham diante dela.

A liturgia sugere assim uma pergunta fundamental: quem está realmente aberto à ação de Deus?

Nem sempre aqueles que parecem mais próximos da religião são os que possuem o coração mais disponível. Às vezes a familiaridade com o sagrado pode gerar uma espécie de acomodação espiritual, que impede a surpresa de Deus.

Por isso o salmo expressa algo essencial para a vida espiritual: a sede de Deus. A fé não nasce da sensação de possuir Deus, mas da consciência de necessitar dele. Quem tem sede busca. Quem busca permanece aberto.

A história de Naamã mostra que Deus pode agir nos caminhos mais simples. O Evangelho mostra que essa ação pode também provocar resistência. Entre a humildade de quem mergulha no Jordão e o orgulho de quem rejeita o profeta está o drama permanente da liberdade humana.

No fundo, a Palavra de Deus nos convida a uma atitude interior muito clara: reconhecer a própria sede e permitir que Deus a sacie. Somente um coração humilde e aberto consegue perceber a presença de Deus quando ela se manifesta, muitas vezes, de maneira simples e inesperada.


 
 
 

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